terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Oração Quaresnal

Segundo a mais antiga tradição litúrgica e ascética da Igreja, a Quaresma é tempo privilegiado de oração. E por quê? Que características, que efeitos tem a oração, para ser tão recomendada neste tempo? Aponto oito motivos para incrementarmos nossa oração neste tempo sagrado de preparação para a santa Páscoa:



1. A oração abre-nos para Deus, várias vezes já escrevi sobre este tema. Nossa tendência é termos a nós próprios como centro, como eixo da existência. Assim sendo, vivemos miseravelmente em função de nós mesmos: tudo julgamos a partir de nós, buscamos nossos interesses, caímos na ilusão de pensar que nossas idéias e avaliações são a própria verdade, e que nossos critérios e desejos são o que é correto.

Assim, fechados em nós, vivemos numa ilusão tremenda: a ilusão de que somos o centro, somos auto-suficientes, somos deuses... Em conseqüência, sem nem percebermos, manipulamos os outros, manipulamos a realidade e até mesmo nossa fé em Deus: eu, o centro; tudo o mais, girando em torno a mim! Isto é pura loucura e somente a oração pode nos colocar de verdade diante da nossa realidade.

Quando nos abrimos para Deus, escutando sua palavra, saboreando tudo quanto fez em nosso favor, calando diante dele o nosso coração e deixando-nos invadir pela doçura de sua presença, então, sim, vamos vendo que Deus é tudo e nós somos tão pequeninos! Vamos, então, entrando, num verdadeiro diálogo com Deus: Ele vai se tornando não Algo, mas Alguém, vivo, amante, terno e que dá novo sentido à minha vida. Rezando, vou aprendendo a deixar que o Senhor seja de verdade Deus na minha vida!

2. Conseqüência deste primeiro efeito da oração é que, rezando e colocando-me autenticamente diante de Deus. Vou começando a ver minha vida numa nova luz, numa luz verdadeira e não mais nas minhas ilusões: “Na tua luz contemplamos a luz”, diz o Salmo. Agora sim: eu mesmo e tudo quanto me acontece começa a ser compreendido diante de Deus, na perspectiva de Deus e não mais a partir da minha ilusória perspectiva. Tudo enche-se de sentido, em tudo começo a perceber um apelo de Deus e em tudo procuro dar uma resposta generosa ao Senhor. Minha vida passa a ser povoada pela presença amiga, forte e suave do Deus vivo.

3. Nesta luz para quem nem mesmo as trevas são escuras, eu me percebo na minha verdade. Sou totalmente dependente de Deus: dele vim e para ele vou, como exclamava Santa Teresa de Jesus: “Vossa sou, para vós nasci! Que quereis fazer de mim?” Experimento – e com alegria – que sou frágil, pequeno e, no entanto, amado. Podemos, então, compreender a frase tão intensa de São Francisco de Assis, dita com humildade e alegria: “Quem é tu? Quem sou eu? Tu és o meu tudo; eu sou o teu nada!” – Mas um “nada” feliz porque pleno do Tudo, aberto para ele e por ele sustentado fiel e amorosamente.

4. Esta luz que a oração permite entrar em nossa vida mostra também nossa infidelidade, nosso pecado, nossa humana debilidade. É um processo doloroso, mas que também liberta. Quando não nos damos conta de nossas imperfeições, infidelidades e pecados é porque temos uma consciência superficial de Deus e não nos olhamos diante da sua luz. São João da Cruz afirmava que, num quarto na penumbra, mesmo que estivesse muito sujo de poeira, ninguém veria. Mas, quanto mais luz entrasse naquele ambiente, mais ficava patente a sujeira. Assim conosco: quanto mais temos consciência da presença de Deus, mais aparece o nosso pecado e humana fragilidade.

5. Mas, esta experiência não nos deprime, não nos faz sentir rejeitados pelo Senhor. Pelo contrário: quando é a luz de Deus que ilumina e mostra nossas fraquezas e infidelidades, a dor pelo pecado vem misturada com a consolação da certeza do perdão e, portanto, cheia de doce esperança. A oração, portanto, faz-nos experimentar o quanto o Senhor é paciente conosco, nos perdoa e nos acolhe, apesar de tudo! Experimentamos o quanto o seu amor é gratuito e fiel!

6. A experiência de um amor assim, gratuito, doce, fiel, abundante, que resultado terá em nós? Uma profunda experiência de conversão, de modo especial em relação ao nosso modo de tratar os outros e com eles nos relacionarmos. Começamos a respeitar e acolher os demais por amor de Deus, porque fomos amados primeiro! Acaba em nós aquela desconfiança em relação às intenções dos irmãos, aquele azedume que nos faz julgar, aquele espírito maligno de competição, que nos leva a ver no outro não um irmão, mas uma ameaça. Belo fruto da oração: a doçura e o acolhimento dos demais.

7. A oração é também poderosa arma no combate espiritual, pois a vida cristã não consiste em boa vontade, mas numa constante luta contra as más tendências que pululam em nós. É precisamente a oração que nos reveste da força do Espírito do Senhor e nos faz participar daquele combate de Jesus no deserto! Sem oração, adeus crescimento efetivo na virtude e no seguimento de Cristo. Sem a oração, a própria ascese, isto é, os exercícios de penitência e piedade, podem tornar-se busca de si próprio, orgulho e amor próprio. É a oração que nos mantém, diante de Deus!

8. Finalmente, a oração dá-nos a graça de viver toda a vida na presença de Deus; faz-nos cumprir aquele preceito do Senhor: “Caminha na minha presença e sê perfeito!” A vida enche-se, então de sentido e podemos experimentar algo do céu já sobre esta terra... Aí, tornam-se verdadeiras em nós as palavras de Santa Teresa: “Nada te perturbe, nada te espante! Tudo passa, Deus não muda! A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta!” Aproveitemos este tempo favorável , este dias de salvação, para rezarmos melhor e rezar na vida o Mistério que iremos celebrar da paixão , morte e ressurreição de Jesus.

Pe. Emílio Carlos Mancini, A†Ω
Fundador da Comunidade Alpha e Ômega

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