terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dois amores se unem num só



Um santo bispo nos deu uma grande ideia sobre o que significa o amor materno de Maria, ao dizer estas belas palavras: "Para formar o amor de Maria, dois amores se unem num só" (...).

Eu pergunto: que mistério é esse, e o que significa a união desses dois amores? Eis a sua explicação: "É que a Virgem Santíssima dedicava a seu Filho o amor que ela devia a um Deus e que ela dedicava a Deus, igualmente, o amor que devia a um filho."

Se compreenderdes estas palavras, vereis que não poderíamos imaginar algo de maior, de mais forte, ou de mais sublime que pudesse expressar o amor da Virgem Santíssima, pois o santo bispo quer nos fazer entender que a natureza e a graça convergem, unidas, para criar impressões mais profundas no coração de Maria.
Não existe nada de mais forte nem de mais indubitável, de mais decisivo, do que o amor que a natureza concede a um filho ou do amor que a graça concede para dedicarmos a Deus. Estes dois gêneros de amor são dois abismos, nos quais não conseguimos penetrar na profundidade, nem compreender toda a sua extensão.

Aqui, porém, podemos dizer com o Salmista: Abyssus abyssum invocat: "Um abismo chama um outro abismo", pois, para formar o amor da Virgem Santa, foi preciso amalgamar tudo o que a natureza possui de mais terno com a graça mais eficaz. A natureza participou forçosamente, porque este amor envolvia um filho; a graça, por sua vez, agiu porque este amor dizia respeito a um Deus: Abyssus.

Mas o que ultrapassa a imaginação é que a natureza e a graça comum não bastam, porque não é próprio à natureza encontrar um filho em um Deus, e não é próprio à graça, pelo menos à graça comum, prosaica, fazer com que se ame um Deus na pele de um filho. Necessário se faz, então, que elevemos o nosso pensamento.
Cristãos, permiti que eu exponha, hoje, meus pensamentos acima da natureza e da graça, e que eu busque a fonte deste amor no seio do Pai eterno.

O que me comove e faz com que eu me sinta extremamente agradecido, é que o divino Filho do qual Maria é a Mãe, é seu Filho e é Deus. "Aquele que nascerá de ti - lhe diz o Anjo - será chamado o Filho do Altíssimo, o Filho de Deus." Assim, Maria está unida a Deus Pai, tornando-se Mãe de seu Filho único, "que lhe é comum, com o Pai eterno pela forma com que ela o gera".

Porém, se Deus, que quis lhe dar seu Filho, comunicar-lhe a sua virtude, espalhar sobre ela a sua fecundidade para concluir a sua obra, obviamente, deve ter derramado em seu casto seio, alguns raios ou algumas centelhas do amor que Ele tem por este Filho único, que é o esplendor de sua glória e a imagem viva de sua substância. Foi daí que nasceu o amor de Maria; e o amor que Ela tem por seu Filho lhe foi conferido pela mesma fonte que lhe concedeu o próprio Filho.

Após esta misteriosa comunicação, o que direis, ó raciocínio, ó inteligência humana? Pretendeis poder compreender a união de Maria com Jesus Cristo? Pois, esta união tem algo a ver com a perfeita unidade existente entre o Pai e o Filho. Não tentareis explicar este amor materno vindo de fonte tão alta e sublime... Este amor é, simplesmente, o derramar do amor do Pai sobre o Filho único.
O milagre contínuo era o de Maria ter conseguido viver separada de seu bem-amado (...)

Porém, posso relatar-vos de que forma terminou tal milagre? (...) Se me permitis, cristãos, de contar o que penso, eu atribuo este último efeito, não a movimentos extraordinários, mas somente à perfeição do amor da Virgem Santíssima.

Mas, como este divino amor reinava em seu coração, sem qualquer obstáculo, e ocupava todos os seus pensamentos, aumentando e avivando-se a cada dia, por sua própria ação, aperfeiçoando-se pelos seus desejos, multiplicando-se por si mesmo e que, estendendo-se sempre, chegou, finalmente, a tal perfeição, a tal ponto que a Terra não era mais capaz de o conter.
Jacques-Bénigne Bossuet
Primeiro Sermão para a festa da Assunção da Virgem Santíssima, primeiro ponto

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA DA EPIFANIA DO SENHOR!‏


"Vimos a sua glória, a glória que lhe vem do Pai
como a de um Filho único,
cheio de graça e verdade" (Jo 1,14).

Celebrando a Semana da Epifania do Senhor, proclaramemos em nossas celebrações a Primeira Carta de São João que nos remete à Teologia da Ternura e do Amor de Deus para com a Humanidade! "Jesus é esperança e certeza de que as trevas podem ser dissipadas. Com sua constante presença de amor e luz em nossa existência, ele nos orienta pelo caminho da verdade e da vida. O discernimento é fundamental na vida do cristão, a fim de que este não seja iludido por inspirações que não provêm de Deus". (Ler Mt 4,12-17.23-25 e 1Jo 3,22-4,6) (Cfe. Liturgia Diária de Janeiro da Paulus, pp. 27-20).
A história da manifestação de Deus, feito pessoa, interessantemente dribla a humanidade, já que começa numa madeira, a manjedoura da estrebaria e termina num madeiro, a cruz! Quem não fizer a experiência do amor e da ternura de Deus em sua vida pessoal e relacional com os outros, jamais compreenderá a sua manifestação humana e divina. Mesmo assim, aparentemente insgnificante, paupérrimo, nascido entre animais, perturba o coração real de Herodes, de toda a Jerusalém e certamente também das estruturas e instituições religiosas de sua época. Por que será? Por que a inveja aflorou no coração de Herodes e de tantos outros, ao verem os Magos procurando Alguém mais importante do que eles? Seria Deus tão louco assim de amor pela humanidade, a ponto de nascer na fragilidade e na meiguiguice de um menino desconhecido, desconsiderado, preterido da sociedade a ponto de ter de nascer numa estrebaria, entre o mau cheiro de feno e animais? Como seria possivel alguém ser mais importante do que o rei? A mesma coisa acontece conosco, em nossas relações humanas. Talvez pudéssemos refletir um pouco sobre a nossa inveja em relação aos outros! Como temos administrado isso em nosso dia-a-dia? A inveja de Herodes usou da espada, para matar todos os meninos com menos de dois anos de idade, nascidos em Belém, para tirar de campo qualquer um que pudesse desinstalá-lo ou tirá-lo de cena; ser melhor do que ele. A inveja nossa, nas mais diversas esferas de nossas relações: sociais, políticas, eclesiais, profissionais e tantas outras, utiliza-se da língua afiada, da palavra maldosa, da calúnia e da mentira para degolar quem passar à nossa frente e parecer melhor do que nós nisso ou naquilo. Sufocamos o amor e a ternura divinas que Deus nos concede, para deixar a inveja tomar conta de nosso coração. Que nesta semana da Epifania do Senhor possamos trabalhar a superação da inveja que possa causar mal-estar nas entranhas e nos porões de nossa intimidade. Aprendamos com Jesus a amar o diferente, até mesmo o que parece ser melhor do que nós!
Trocar a inveja pela humildade poderá ser um bom esforço a ser empreendido: "Filhinhos... Nós somos de Deus. Quem conhece a Deus escuta-nos... Nisso reconheceremos o espírito da verdade e o espírito do erro".

Pe. Gilberto Kasper