terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A superioridade de Maria sobre os anjos

Entrando onde Maria estava, disse-lhe o anjo: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo!" (Lucas 1, 28) Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos. A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por tê-los reverenciado. Mas, um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Arcanjo Gabriel tivesse saudado a Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: “Ave. Alegra-te, cheia de graça, eu vos saúdo." Não convinha que o anjo reverenciasse o homem, até o momento em que surgiu, na natureza humana, alguém superior ao anjo e, esta criatura era a bem-aventurada Virgem Maria. A bem-aventurada Virgem Maria superou todos os anjos, inicialmente, pela plenitude da graça, e para manifestar esta preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo: “cheia de graça”; o que quer dizer: a vós venero, porque me ultrapassais por vossa plenitude de graça. Diz-se também da Bem-aventurada Virgem que é cheia de graça, em três perspectivas: Primeiro, sua alma possui toda a plenitude da graça. Deus dá a graça para fazer o bem e evitar o mal. Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos e sua intimidade com o Senhor. O Arcanjo Gabriel reconhece esta superioridade, quando lhe dirige estas palavras: O Senhor é convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de Deus do que eu mesmo estou. O Senhor está, efetivamente, convosco. Em terceiro lugar, a Santíssima Virgem, ultrapassou os Anjos em pureza. Não só possuía em si mesma a pureza, como procurava a pureza para os outros. São Tomás de Aquino, Extratos do final do opúsculo VIII, A Saudação Angélica. Comentário sobre a Ave Maria.

sábado, 26 de janeiro de 2013

HOMILIA PARA O TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM DE 2013

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé! “Neste Terceiro Domingo do Tempo Comum, Jesus continua a se manifestar. Hoje ele se manifesta num culto semanal na sinagoga de Nazaré, onde costuma participar, exercendo o ministério de leitor. Jesus, a Palavra de Deus viva e encarnada na história humana, proclama seu programa de vida. Nós comunidade de fé, seguidora de Jesus, escutamos como discípula fiel a Palavra do Senhor e renovamos o nosso compromisso de vivê-la, nos tornando amigos e amigas de Deus. ‘Deus nos reúne em torno da sua palavra a fim de celebrarmos a eucaristia, para a qual convergem o programa de Jesus e a vida das nossas comunidades. Conscientes de que somos membros do único corpo de Cristo, façamos, nesta liturgia, memória da prática libertadora do Senhor, o ungido do Pai. Ouçamos a palavra de Deus, a qual cria comunidade e provoca a transformação dos corações, para que as pessoas se sintam membros do corpo de Cristo e sejam, a exemplo dele, ungidas para a missão. Na celebração, a assembleia escuta a palavra de Deus e dá adesão a ela. Por meio da palavra da Escritura, Jesus revela sua missão. A comunidade é o corpo de Cristo e cada pessoa é membro desse corpo. Cada Eucaristia, tornando presente Cristo libertador dos pobres, deve ser marcada pela dimensão da liberdade’ (cf. Liturgia Diária de Janeiro de 2013 da Paulus, pp. 74-77). Jesus realiza plenamente as Escrituras, anunciando a Boa Nova aos pobres, a liberdade aos que se encontram aprisionados, a vista aos que não enxergam a libertação aos oprimidos. Assim ele cumpre o ano da graça do Senhor, proclamando a salvação integral do ser humano, ou seja, a libertação de todas as formas de opressão. O olhar fixo nas palavras e nas ações de Jesus, nos leve a centrar as forças no serviço ao Reino da vida. O documento de Aparecida, no número 361, afirma que ‘o projeto de Jesus é instaurar o Reino de seu Pai. Por isso, pede a seus discípulos: ‘Proclamem que está chegando o Reino dos céus!’ (Mt 10,7). Trata-se do Reino da vida. Porque a proposta de Jesus Cristo a nossos povos, o conteúdo fundamental dessa missão, é a oferta de vida plena para todos. Por isso, a doutrina, as normas, as orientações éticas e toda a atividade missionária das Igrejas, deve deixar transparecer essa atrativa oferta de vida mais digna, em Cristo, para cada homem a para cada mulher’. E no número 358, acentua: ‘as condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem com o projeto do Pai e desafiam os cristãos a um maior compromisso a favor da cultura da vida. O Reino de vida que Cristo veio trazer é incompatível com essas situações desumanas’. A Palavra de Deus é sempre atual, pois fala da vida e da história do ser humano, interpelando-o a gestos de amor fraterno e de partilha. Fortalece a fé e a esperança para que todos sejam ‘Teófilo’, isto é, amigos de Deus. Ela deve ressoar em nossa vida e missão, conduzindo-nos a uma prática libertadora integral, conforme a Boa Notícia trazida por Jesus de Nazaré. Recebemos dons do Espírito para realizarmos nosso compromisso batismal a serviço do Reino. Como membros do corpo de Cristo, somos impelidos a colaborar para a realização do amor e da justiça. Formamos uma comunidade fraterna, chamada a continuar a missão de Jesus. Que possamos ser instrumentos de libertação, participando das alegrias e dos sofrimentos uns dos outros, tendo um cuidado especial com os membros do corpo mais necessitados. Que de fato, se cumpra a Palavra da Escritura que proclamamos e ouvimos. Que a Palavra que se faz carne no hoje da comunidade celebrante, Palavra que é luz para os olhos, alegria ao coração, de fato seja traduzida na realidade, num programa de vida que transforme todo tipo de morte em vida” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB nº 24, pp. 72-78). São Paulo compara nossa Igreja a um corpo, do qual a cabeça é o próprio Cristo, e nós seus membros. O ANO DA FÉ nos remete à experiência eclesial das primeiras comunidades cristãs, descritas no Livro dos Atos dos Apóstolos, bem como nas Cartas de São Paulo. Somos convidados a sermos uma Igreja, isto é, um Corpo bem malhado, sarado e cuidado, como dizemos de nossos físicos atualmente. Para isso é preciso dieta balanceada: capacidade de acolhida, perdão, misericórdia, diálogo com o diferente e, sobretudo humildade. Precisamos, também, malhar: fazer o exercício do serviço ao invés da busca de cargos, poder e prestígios. Há membros em nossas Comunidades de Fé que querem escolher qual membro será. Mas quem determina nossa missão não somos nós mesmos, e sim o Espírito Santo. Há até quem pensa que poderia “barganhar” com o Espírito que conduz a Igreja de Jesus Cristo, tentando ser o dedo indicador, o olho, ou não aceitando ser o dedo mínimo, aquele que fica escondido no sapato. Tais eventos mutilam a Igreja; deformam-na, deixam-na aleijada. Imaginemos um corpo feito só de olhos, ou só de dedos indicadores. Teríamos diante de nós um monstro, não um corpo. Outros ainda pensam que faltando à Comunidade não farão falta. Um corpo que seja privado, mesmo pelo menor dos membros, torna-se um corpo portador de deficiências. Por isso, TODOS são imprescindíveis. Ninguém pode faltar. Todos são importantes, cada um na sua missão eclesial, discípula e missionária. Não mutilemos a Igreja de Jesus Cristo por querermos ser melhores, e muito menos por nos sentirmos dispensados da Comunidade de Fé! Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço sempre amigo e fiel, Pe. Gilberto Kasper (Ler Ne 8,2-6.8-10; Sl 18B(19); 1 Cor 12,12-30 e Lc 1,1-4; 4,14-21)

sábado, 19 de janeiro de 2013

HOMILIA PARA O SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM 2013

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé! “No início do Tempo Comum, depois do Natal e antes da Quaresma, lemos o início da missão de Jesus com o chamado dos discípulos, a proposta do Reino. ‘No ano C, é Lucas quem nos conduz; ele insiste no seguimento radical de Jesus, ensina-nos a orar, a amar, a perdoar, a nos deixar guiar pelo Espírito, a levar em conta as mulheres, a colocar no centro de nossa vida o acolhimento e a preocupação com os pobres...’ (Ione Buyst). Neste segundo domingo, celebramos a manifestação de Deus em Jesus, em Caná da Galileia, no contexto de um casamento e aí Jesus realiza o seu primeiro sinal. ‘Reunidos pelo Espírito, somos convidados a tomar parte no banquete festivo das bodas de Caná, quando Jesus realiza o seu primeiro sinal. Verdadeiro esposo da humanidade, ele nos oferece o bom vinho que a todos alegra. Sintamos a honra de ser participantes das núpcias, sinal da aliança de Deus com seu povo. A comunidade celebrante, noiva de Jesus, nunca será abandonada nem ficará deserta. Na diversidade de dons e carismas, a comunidade Igreja celebra as núpcias com o Cordeiro. A exemplo do profeta Isaías, não podemos nos acomodar enquanto a justiça e a liberdade não florescerem. Jesus é o noivo da comunidade reunida. A diversidade de dons, quando postos em comum, é sinal de riqueza na comunidade. Celebrar a Eucaristia significa renovar o gesto que constitui esta comunidade em povo de Deus. O vinho consagrado, sangue de Cristo e sinal de seu amor pela Igreja, antecipa a festa da nossa assembleia que se torna plena nas núpcias eternas’ (cf. Liturgia Diária de Janeiro de 2013 da Paulus, pp. 58-60). O casamento em Caná é o primeiro dos sete sinais, escolhidos pelo evangelista para revelar Jesus como o Messias e Filho de Deus. É o início da manifestação da glória de Cristo que se plenificará, através de sua entrega na cruz. A água, transformada em vinho, é sinal da vida nova, do vinho novo da salvação, que o Senhor oferece de forma abundante como esposo da humanidade. Os discípulos expressam sua adesão a Jesus, através do acolhimento aos sinais de amor e de salvação. O Senhor permanece fiel à aliança e nos cumula de dons para que possamos colocá-los a serviço da edificação da comunidade, criando relações fraternas. Por meio da fé em Jesus Cristo, formamos um só corpo, no mesmo Espírito. Maria é modelo de fidelidade à aliança, ao plano de amor de Deus, revelado em Cristo. Com solicitude maternal, ela percebe que ‘eles não têm mais vinho’. Sua atitude nos ensina a sermos pessoas sensíveis e comprometidas com as necessidades dos irmãos e das irmãs. Maria não cessa de interceder junto ao Filho para que a humanidade alcance a vida em plenitude. O documento de Aparecida, número 364, convida que ‘fixemos o olhar em Maria e reconheçamos nela a imagem perfeita da discípula missionária. Ela nos exorta a fazer o que Jesus nos diz (cf. Jo 2,5) para que ele possa derramar sua vida, entregando-a. Junto com ela, queremos estar atentos uma vez mais à escuta do Mestre e, ao redor dela, voltarmos a receber com estremecimento o mandato missionário de seu Filho: ‘Vão e façam discípulos todos os povos’ (Mt 28,19). Escutamos Jesus como comunidade de discípulos missionários, que experimentaram o encontro vivo com ele, e queremos compartilhar todos os dias com os demais essa alegria incomparável. O encontro com Cristo proporciona experimentar o melhor vinho que salva e dá sentido à nossa festa. Como verdadeiro esposo, Jesus está sempre presente para oferecer o vinho novo, sinal de seu amor e de sua ação libertadora. Somos chamados a distribuir o vinho que o Senhor nos oferece, entre os convidados, para a grande festa da vida. O nosso anúncio deve irradiar a alegria da festa, do banquete do Reino. [...] Imaginemos esse casamento em Caná. Deve ter sido de um casal pobre. Maria, Jesus e seus Discípulos pobres, foram convidados. Ricos não se misturavam com os pobres. Nem se poderia imaginar que algum pobre fosse convidado à sociedade da época, mais ou menos como é em nossos dias. O vinho era uma bebida nobre e cara, consumida somente em grandes eventos, como núpcias. Os Apóstolos, tendo deixado tudo para seguir o Mestre, aproveitavam de oportunidades como essas, para “tirarem a barriga da miséria”. Eram “bons de copo” e também Jesus bebia com eles, o vinho do casamento. Maria entra em cena: Mãe preocupada; Mulher perspicaz e Discípula confiante no Filho. Do ponto de vista humano, como qualquer mãe, chama a atenção do filho, advertindo-o, quem sabe, de que seus amigos estavam exagerando na bebida. “Eles não tem mais vinho”. Em outras palavras: “peça aos seus amigos, para maneirarem no copo”. Jesus, aparentemente parece grosseiro com a mãe: “Mulher, por que dizes isso a mim? Minha hora ainda não chegou”. Mesmo assim Maria sabe em quem põe sua confiança e vai aos que servem e pronuncia o coração desse Evangelho: “Fazei o que ele vos disser”. E o que Jesus diz? Que participemos do Seu primeiro grande sinal (milagre). Enchamos as talhas de água, que Ele transforma em vinho, o melhor vinho. Nossa participação é apenas água, o resto fica por conta do Senhor. Ainda: Jesus resume seu anúncio evangélico numa única orientação: “Amai-vos como eu vos amo!” E isso não parece ser tão simples assim. Quem ama, se preocupa, promove, fala bem do outro, não inveja ninguém, não engana e nem mente. Eis razões para nossa conversão em nossas relações de Comunidades, Eclesiais, Políticas e Sociais. Conta-se que um casal pobre, preparando-se para o casamento, deixara um barril diante da casa do noivo. Os convidados, conforme costume da época, passavam pelo barril e nele depositavam, ao longo do dia do casamento, sua porção de vinho a ser consumida nas bodas. Ao servir a primeira taça de vinho, o noivo foi ao barril. Qual não foi a surpresa: era pura água. Todos aqueles convidados pensaram a mesma coisa: “Coloquemos água no barril, pois como todos colocarão vinho, ninguém perceberá que colocamos água...” Isso é muito frequente em nossas Comunidades e na Sociedade que vive na hipocrisia das aparências. Tem gente que vai às festas para “tirar a barriga da miséria” e ainda sai com bolsas cheias de docinhos, e há aqueles que não partilham nada, apenas buscam levar vantagem em tudo [...]. Neste domingo celebramos São Sebastião” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB nº 24, pp. 66-71), o Padroeiro de nossa Arquidiocese de Ribeirão Preto. Em nossa Igreja Santo Antoninho, agradecemos nas Missas das 8 e 10 horas meus 23 anos de Ministério Sacerdotal. Já às 11 horas, teremos um belíssimo Concerto de Acordeon com Gilda Montans e Meire Genaro, a quem somos profundamente agradecidos. Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço sempre amigo e fiel. Para meu aniversário de Ordenação Sacerdotal, não espero presentes, mas a oração de uma Ave Maria bem rezada, proveniente do fundo do coração, por minha santificação e fidelidade em minha vocação ao serviço gratuito pelo Reino. Que eu saiba oferecer o melhor vinho que o Senhor me concedeu. Pe. Gilberto Kasper (Ler Is 62,1-5; Sl 95(96); 1 Cor 12,4-11 e Jo 2,1-11).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

CONVITE PARA O ANIVERSARIO DE ORDENAÇÃO SACERDOTAL

Em cada "Ave Maria", entramos em comunhão com Jesus

Visto que Maria é a "cheia de graça", cada "Ave Maria" abre nossa alma às preciosas graças que enriquecem nosso espírito, aumentando nossas virtudes e conduzindo-nos a uma profunda união com o Coração Eucarístico de Jesus. Os Corações de Jesus e de Maria formam uma união tão perfeita que a cada "Ave Maria", entramos em comunhão com o próprio espírito de Jesus, assim como um respirar espiritual de inspiração divina que vivifica a nossa alma. Meditações do Rosário de Madre Teresa de Calcuta

sábado, 12 de janeiro de 2013

HOMILIA PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé! “Concluindo as celebrações natalinas, festejamos o Batismo de Jesus. Embora não precisasse ser batizado, o Senhor quis se solidarizar com todo o povo que buscava o batismo de João. Esta liturgia é momento favorável para relembrarmos e renovarmos nossos compromissos batismais. As leituras nos revelam o servo de Deus, fortalecido pelo Espírito e enviado para proclamar a boa-nova da paz. Pelo batismo também nós recebemos o Espírito que nos anima na missão e nos dá força para perseverar no bem. Somos servos do Senhor a serviço da comunidade e responsáveis por construir uma sociedade justa. Jesus busca, em João, o batismo. Aí é proclamado ‘Filho amado de Deus’. A prática da caridade e da justiça deve ser nosso diferencial diante de Deus” (cf. Liturgia Diária de Janeiro de 2013 da Paulus, pp. 42-45). Em cada batizado que celebro, costumo fazer três perguntas aos pais e padrinhos: Sabem o dia em que foram batizados? Quem (o padre) os batizou? São de Igreja, participando de alguma Comunidade de Fé? Geralmente a reposta é “NÃO”. Quem não sabe o dia do batizado, também não o celebra, pelo menos, consciente e livremente. Talvez por tradição, ou porque é hábito da família. Sem uma Comunidade, que sustente os compromissos batismais, a fé recebida no dia de nosso batismo esclerosa, resseca, mofa. Já o Ano da Fé é um insistente convite, de que arejemos nossa fé, cultivando-a e por meio dela, anunciemos as maravilhas que os dons do Espírito Santo realizam naqueles que se abrem a Ele. Esconder tais dons significa insensibilidade, indiferença e até omissão. Eis a hora de assumirmos nossa fé, como dom precioso que nos é dado desde o “Útero da Igreja”, a Pia ou Bacia Batismal! “A festa do Batismo de Jesus revela para nós mais uma dimensão de sua encarnação. É a manifestação pública da sua missão. Solidário com o povo, Jesus também entra nas águas do Jordão para receber o batismo. O seu mergulho na água se liga com seu mergulho na nossa humanidade. Jesus se faz solidário, e mais ainda, Servo e Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele assume nossa condição humana, num ato solidário, que o leva até a Cruz. É uma caminhada que vai em direção à Páscoa. Podemos nos perguntar se, a partir do Batismo de Jesus, procuramos entender e concretizar o nosso batismo. Se estamos dispostos a ‘mergulhar’ no projeto de Jesus para construir relações humanas construtivas, a começar pela família, no aconchego do lar, na escola, no trabalho, na Igreja, no mundo, com atitudes solidárias, ecumênicas. A liturgia deste domingo, que encerra o Tempo do Natal, recorda o batismo de Jesus, por João Batista, nas águas do rio Jordão onde ele é manifestado como Filho amado do Pai. Solidário com os que buscavam a conversão e a vida nova, ele se deixou batizar, enquanto permaneceu em oração. Em sintonia com o povo e com Deus, Cristo ouviu a voz do Pai que o consagrou para cumprir o seu plano de salvação. Jesus havia acolhido o movimento de João Batista, a voz profética que ressoa, após anos de silêncio. Sobre ele desce a plenitude do Espírito Santo, a força do amor do Pai, para realizar a sua vontade. Assim o Reino, que se manifesta através de seu ministério, expressa o desígnio salvífico de vida plena para toda a humanidade. Quem o segue no caminho do discipulado é impelido a trilhar o seu caminho de justiça e de solidariedade. Deus se revelou em Jesus, confiando-lhe a missão de Servo e Filho amado. Pelo batismo, mergulhamos no mistério da morte e da ressurreição de Jesus para vivermos a vida nova. Em Cristo, recebemos o Espírito para a missão e fomos adotados/as como filhos e filhas de Deus. Somos gerados a cada dia, pelo amor misericordioso e bondade infinita do Pai, para renovarmos a nossa adesão e o nosso compromisso com o seu Reino. Iluminados e ‘banhados em Cristo, somos uma nova criatura! As coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo’. Unidos a Cristo, o Ungido do Pai, nos tornamos continuadores de sua missão profética, sacerdotal e régia. Ele nos confirma no anúncio e testemunho da Boa Nova do Reino, pois ‘passou a vida fazendo o bem e curando a todos os que estavam sob o poder do mal’. Vamos abrir o ouvido do coração para acolher a voz do Pai, que ressoa dentro de nós, e que declara nossa missão: Tu és minha filha muito amada, tu és meu filho muito amado” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 24, pp. 60-65). O Batismo é nosso segundo parto. Primeiro partimos do útero de nossa mãe. Quando batizados, partimos do útero da Igreja, preparando-nos à luz da fé que nele recebemos, para o parto definitivo, que se debruça sobre a esperança de que morrendo, partindo do útero da terra, veremos Deus como Deus é, e isso nos basta. Renovemos nossos compromissos batismais, buscando viver nosso Batismo na relação com Deus, que nos adota como seus de verdade, e com os outros, que se tornam nossos irmãos, para santificar-nos. Todo batizado torna-se um ser divinizado, isto é, candidato à santidade. Por isso não é nenhuma pretensão descabida, queremos ser santos. Devemos, isso sim, esforçar-nos todos os dias, para sermos santos. Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço sempre amigo e fiel, Pe. Gilberto kasper (Ler Is 42,1-4.6-7; Sl 28(29); At 10,34-38 e Lc 3,15-16.21-22).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A diferença entre o que foi dito pelo Anjo a Zacarias e a Maria

O Anjo do Senhor disse a Zacarias: “João será grande diante do Senhor" (Lc 1, 15). O Anjo Gabriel disse a Maria que Jesus, "será grande, será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1, 32), sem termos de comparação ou limitação. O epíteto "grande" é reservado a Deus no Antigo Testamento. A Zacarias foi dito que João "ficará pleno do Espírito Santo, ainda no seio de sua mãe" (Lc 1, 15). Sua concepção é fruto da união de Zacarias e Isabel (Lc 1, 23-24). A Maria, o Anjo disse que Jesus seria concebido pelo Espírito Santo: "O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra" (Lc 1, 35); é o próprio Deus que desce, esta é uma nova criação. Zacarias, em seu cântico, expressa que João tornar-se-ia "profeta do Altíssimo" (Lc 1, 76). O Anjo disse a Maria, que Jesus deveria ser chamado "Filho do Altíssimo" (Lc 1, 32) Filho de Deus (Lc 1, 35). A missão de João Batista é a de "converter muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus." (Lc 1, 16). Jesus tem a missão de ser o rei messiânico do novo povo de Deus (Lc 1, 32-33), o seu povo. A. Serra "Bibbia" Nuovo Dizionario di mariologia, a cura di. S. Fiores e S. Meo, ed. San Paolo, Milão 1986, p. 220-223

domingo, 6 de janeiro de 2013

HOMILIA PARA A FESTA DA EPIFANIA DO SENHOR

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé! “A festa da Epifania celebra a manifestação de Jesus Cristo, luz e salvação de Deus, a todos os povos e nações. Jesus é o verdadeiro Messias, o rei justo, o libertador, esperado por todas as pessoas comprometidas em construir o Reino da justiça. Os sábios do Oriente representam os que se deixam guiar pela luz, pelo projeto de Deus a serviço da vida plena. Eles experimentaram uma grande alegria ao encontrarem Jesus, o rei dos judeus, e o adoram, oferecendo-lhe os seus presentes. As promessas das Escrituras acerca do Messias são compreendidas à luz da fé na ressurreição. Quem se deixa iluminar pela sabedoria de Deus, acolhe e reconhece Jesus como o Messias prometido, o portador da salvação a toda a humanidade. A ambição, o poder, como os de Herodes, leva a rejeitar a presença do Salvador desde o seu nascimento. A atitude dos reis, que chegam de longe para adorar o Menino, contrasta com a dos chefes de Jerusalém que tramam sua morte. ‘Somos convidados a seguir o exemplo dos magos: guiados pela estrela, caminhar ao encontro do salvador da humanidade. A páscoa de Cristo se manifesta como luz na vida de todos nós que esperamos a revelação do Senhor e ansiamos por unidade, justiça e paz. Contemplemos nas leituras a glória do Senhor, luz que ilumina e reúne em torno de si toda a humanidade, e acolhamos com fé a manifestação do recém-nascido, nosso salvador. Abandonemos o desânimo e olhemos para frente com esperança, pois a glória de Deus já se manifestou sobre a humanidade. Precisamos descobrir a estrela que nos guie de forma segura ao longo do ano. Já não há povo excluído das promessas divinas, manifestadas em Jesus. Deus se manifesta a todos os povos na pessoa frágil do menino Jesus’ (cf. Liturgia Diária de Janeiro de 2013 da Paulus, pp. 26-29). O episódio dos reis magos acentua o acolhimento de Jesus e sua mensagem pelos gentios e prefigura a missão universal dos discípulos de evangelizar ‘todas as nações’. É um apelo bem atual para a nossa realidade. Por isso, a Jornada Mundial da Juventude que acontecerá de 23 a 28 de julho, na cidade do Rio de Janeiro, refletirá o tema: ‘Ide e fazei discípulos entre todas as nações’ (Mt 28,19). O itinerário percorrido pelos magos propõe o caminho para encontrar Jesus. Ao descobrir os sinais (a estrela), eles se colocam no caminho, perguntam aos que conhecem as Escrituras, procuram até encontrá-lo e o adoram, aderindo a ele com a fé e a vida. O encontro com o Senhor transforma a nossa vida. Sua presença e palavra nos iluminam e nos convidam a levantar, comprometendo-nos a construir um caminho novo de libertação. Em Cristo nos tornamos discípulos e discípulas, participantes da mesma herança, do mesmo corpo, da mesma promessa de salvação. A ‘Epifania’ do Senhor nos proporciona viver a comunhão e a fraternidade com todos os povos do universo. Lá na periferia, longe do palácio real, ‘os magos viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra’ que indicam, respectivamente, a sua realeza, divindade e incorruptibilidade” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 24, pp. 54-59). A estrela que leva os cristãos a Jesus nos dias atuais, é a fé recebida, como dom gratuito no dia em que mergulhados no útero da Igreja, a Pia Batismal. Adotados da sabedoria divina, nosso horizonte aponta a “estrela” que nos conduz a Jesus. Além disso, todo cristão é convidado a ser estrela a qualquer pessoa que esteja à procura de Jesus. É interessante que os Magos procuram saber o itinerário com Herodes, porque nem de longe poderiam imaginar que aquele rei não soubesse do acontecido em Belém. Enganados pelo rei invejoso, tomam caminho adverso, depois de encontrar-se com Jesus. Mesmo assim não conseguem evitar que a inveja incontrolável de Herodes mande matar todos os meninos com menos de dois anos de idade. Seria insuportável conceber um rei em seu lugar, ou então, alguém superior a ele. Quantas vezes, entre nós, vestimos a inveja de Herodes, degolando (com nossa língua maldosa) nossos irmãos por pura inveja? Há quem engane o itinerário até Jesus. São aqueles que se rogam o direito de julgar, condenar e despistar, para não dizer, enxotar as pessoas de nossas Comunidades: seja por ignorância, seja por pura inveja, esta que cheira a Herodes! Como seria bom e agradável ao Senhor, que a Epifania fosse mais real, sincera, sentida e comprometida em nossas Comunidades Eclesiais, Políticas e Sociais. Ainda há tempo de conversão! Sejamos a Estrela que conduza nossos irmãos a Jesus o Salvador! Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel, Pe. Gilberto Kasper (Ler Is 60,1-6; Sl 71(72); Ef 3,2-3.5-6 e Mt 2,1-12).

EPIFANIA: MANIFESTAÇÃO DE NOVA ESPERANÇA

Pe. Gilberto Kasper pe.kasper@gmail.com Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. O mês de janeiro marca o início de um Novo Ano civil. Celebrou, na dinâmica das festas natalinas, no tempo de Natal, a festa da “Epifania”, palavra grega, que significa “manifestação”. Esta festa retoma o Natal de Jesus, celebrando a sua humanidade manifestada a todos os povos. Traz consigo a mística da universalidade da salvação. Segundo os Roteiros Homiléticos da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) “Os reis magos querem presentear ao Rei Menino com seus tesouros (tributos). Isso indica que os pagãos são atraídos pela luz de Jesus, o Senhor dos senhores. Aponta para nós, hoje, que é preciso percorrer o itinerário da fé: a busca dos sinais de Deus e deixar-se guiar pela estrela que conduz às ‘periferias’ onde pessoas vivem na precariedade da saúde pública, da escola, da moradia e do desemprego, entre outras necessidades, e lá ‘abrir os tesouros’ da nossa solidariedade (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB, nº 24, p. 54). Desta forma, todas as pessoas de boa vontade, especialmente Cidadãos e Poderes constituídos e eleitos para governar-nos nestes próximos quatro anos, seja a Prefeita Municipal com suas Secretarias, seja os nobres Vereadores que já ocupam seu espaço na Casa de Leis, deverão ser sinal da universalidade, da Epifania: Manifestação de Nova Esperança! Na periferia, longe do palácio real, “os magos viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” que indicam, respectivamente, a sua realeza, divindade e incorruptibilidade (cf. Mt 2,11). As eleições falaram por si só: nosso povo sente-se desencantado, mergulhado num profundo desânimo, que naturalmente descredibiliza pessoas que ainda se revestem da missão política, a partir do serviço ao bem comum. A ambição, o poder, como os de Herodes, leva a rejeitar a presença de valores essenciais a um bom político, como a verdade, a justiça, a liberdade, a humildade e o ardente desejo de servir, sem olhar a quem. A Epifania: Manifestação de Nova Esperança proporcione aos Servidores Eleitos viver a comunhão e a fraternidade com todos os cidadãos que remetem suas esperanças no coração de cada um. Oxalá, os Eleitos saibam sentirem-se Servos e não “Donos” de um Povo desencantado e carente de nova Esperança, novo Ânimo e novas Perspectivas de Vida. Saibamos, como cidadãos, exercer nossos direitos e manifestar a consciência de nossas responsabilidades. Sejam nossas Cidades zelosamente acariciadas pelo Bem Comum e jamais por interesses particulares. Saibamos todos juntos: Servidos e Povo esforçar-nos por melhor qualidade de vida e maior dignidade humana!

Maria nos ensina a ser "epifania" do Senhor

A luz que brilhou naquela noite de Natal, iluminando a gruta de Belém, onde Maria, José e os pastores se encontravam em silenciosa adoração, resplandece hoje, e se manifesta a todos. A Epifania é um mistério de luz, representado simbolicamente pela estrela que guiou os Reis Magos. No entanto, a verdadeira fonte de luz, "o Astro das alturas que vem nos visitar” (cf. Lc 1, 78) é Jesus Cristo. No contexto litúrgico da Epifania manifesta-se também o mistério da Igreja e a sua dimensão missionária. Ela é chamada para fazer resplandecer no mundo a luz de Cristo, refletindo-a em si mesma como a lua reflete a luz do sol. Na Igreja cumpriram-se as antigas profecias relativas à cidade santa de Jerusalém, como a maravilhosa profecia de Isaías: "Levanta-te, resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz... As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora" (Is 60, 1-3). É isto que os discípulos de Cristo deverão realizar: ensinados por Ele a viver no estilo das Bem-Aventuranças, deverão atrair, mediante o testemunho do amor, todos os homens para Deus: "Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu" (Mt 5, 16). Ao ouvir estas palavras de Jesus, nós, membros da Igreja, não podemos deixar de sentir toda a insuficiência da nossa condição humana, marcada pelo pecado. A Igreja é santa, mas formada por homens e mulheres com seus limites e erros. É Cristo, só Ele, que, ao conceder-nos o Espírito Santo pode transformar a nossa miséria e renovar-nos constantemente. É Ele a luz dos povos, lumen gentium, que escolheu iluminar o mundo mediante a sua Igreja (cf. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 1). "Como poderá acontecer isto?", nós também nos perguntamos, refletindo sobre as palavras que a Virgem dirigiu ao arcanjo Gabriel. E é precisamente ela, Maria, a Mãe de Cristo e da Igreja, que nos oferece a resposta: com o seu exemplo de total disponibilidade à vontade de Deus "fiat mihi secundum verbum tuum" (Lc 1, 38) a Virgem Santa nos ensina a ser "epifania" do Senhor, abrindo o coração à força da graça e aderindo, fielmente, à palavra do seu Filho, luz do mundo e objetivo último da história. Papa Bento XVI Extrato da homilia para a Epifania 6 de janeiro de 2006

Sobre a historicidade do episódio dos Magos

O episódio dos Magos parecia algo lendário. Via-se nele o simples cenário de textos bíblicos, implicitamente mencionado na filigrana do relato: o Salmo 72 previa que os reis, vindos do Oriente, se prostrariam diante do Messias, homenageando-o e oferecendo-lhe ouro e incenso. (Mt 2:11). Mais precisamente, Mateus não classifica esses magos de “reis”, como aludem alguns textos. E esses textos não falam sequer da oferta de mirra. Eles, então, não produziram o relato. É o próprio evento que sugere esta alusão, bíblica, sem extrapolação ou megalomania. Que os magos cheguem, à procura de um rei, baseados nas estrelas − precisa Xavier Leon-Dufour * (criticando aqui, certo radicalismo de Brown) −, não é absolutamente impossível, já que, por volta do ano 70, um mago chamado Tiridates, veio adorar Nero. Por que não dizer que, se faltam todas as provas negativas, subsiste um índice de não impossibilidade. * Cf. Xavier Léon-Dufour, Recensão de R. E. Brown, em Recherches de Science religieuse (Pesquisas de Ciência religiosa) 66, 1978, p. 131. Padre René Laurentin, Les Evangiles de l’Enfance du Christ (Os Evangelhos da Infância de Cristo), ed Desclée, Paris, 1982, pp 431-432

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O ENTUSIASMO DE COMUNICAR A FÉ

Pe. Gilberto Kasper pe.kasper@gmail.com Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. “É o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28,19). Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a si os homens de cada geração: em todo o tempo, ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé” (cf. Carta Apostólica sobre A PORTA DA FÉ do Papa Bento XVI). A fé nos é dada, como dom precioso no Sacramento do Batismo. Não se trata de um dom mágico, mas que supõe nossa coparticipação no seu cultivo. Dom Arnaldo Ribeiro, quando presidia os Sacramentos da Iniciação Cristã, especialmente o da Crisma, costumava comparar-nos a uma esponja de lavar louça. A esponja que tem um lado mais áspero, para limpar louça mais gordurosa, como panelas e talheres, e outro mais macio, para limpar louças mais frágeis, como copos. Dizia que no Batismo, a esponja é encharcada na água batismal da qual exalam os dons do Espírito Santo, tornando o batizando capaz de tornar-se discípulo e missionário do Senhor. A esponja só tem utilidade, quando encharcada, molhadinha. Enquanto seca, só risca e não limpa a louça. Antes machuca e estraga. É inútil e desprezível. Se durante nosso Batismo somos encharcados dos dons do Espírito Santo provenientes da água batismal, corremos o risco de secar, ao longo de nossa vida. Não basta sermos batizados. Precisamos frequentemente renovar nossos compromissos batismais e buscar novos meios de encharcar-nos, como a esponja, a fim de sermos úteis. Uma esponja seca de nada serve. Já uma esponja encharcada deixa tudo brilhando e cheiroso. O Ano da Fé nos conclama a estarmos sempre encharcados dos dons do Espírito Santo, a fim de sermos úteis em nossa missão de discípulos e missionários que anunciam a Boa Notícia de que o Reino de Deus está entre nós. Se estivermos ressecados, busquemos, através da vida sacramental, sobretudo do exercício da caridade, encharcar-nos dos dons do Espírito Santo!

PORTA FIDEI – A PORTA DA FÉ

Pe. Gilberto Kasper* “A PORTA DA FÉ (cf. At 14,27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar esse limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar essa porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Esse caminho tem início no Batismo (cf. Rm 6,4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos creem nele (cf. Jo 17,22)” (cf. Carta Apostólica do Papa Bento XVI sobre o Ano da Fé, n. 1). Costumo perguntar, quando batizo, se pais e padrinhos sabem o dia do próprio batizado. A maioria não sabe. Não sabendo o dia do Batismo, dificilmente o celebramos. Não celebrando o próprio Batismo, dificilmente assumimos nossos compromissos batismais. Mas o Batismo é o primeiro Sacramento da Iniciação cristã, que afinal nos adota como filhos de Deus. Gosto de chamar nosso Batismo, o segundo parto. O primeiro é quando nascemos do útero materno. O parto do Batismo é quando nascemos do útero da Igreja, a Pia ou Bacia Batismal. Há um terceiro parto, para o qual nosso Batismo nos prepara, quando partimos do útero da terra em direção à eternidade. No Batismo recebemos o dom da fé. É dom gratuito que nos confere a dignidade de Filhos de Deus, partícipes de uma mesma Família: a Família Cristã, a Família dos Filhos de Deus. Podemos comparar tamanho dom, como um rapaz que ao pedir sua namorada em noivado, lhe oferece um lindo anel. Ao entregar o anel, que certamente estará num estojo aveludado envolvido em papel de presente, a noiva admira o invólucro, mas nem abre o estojo para ver e admirar o anel. Mais ou menos é o que fazemos com a fé recebida, como dom gratuito, no dia de nosso Batismo. Nem nos damos o trabalho de abrir o estojo. Guardamos o presente no fundinho da gaveta e lá, mofa, esclerosa, fica escondido. Mas a fé, como o anel deve ser mostrado, exibidos, e assim brilhar diante de todos que nos olham e admiram não um anel no dedo, mas uma fé vivida concretamente, produzindo frutos saborosos de amor, verdade, justiça, liberdade e dignidade. Penso que o Ano da Fé espera justamente isso de cada cristão: manifestemos nossa fé ao mundo, a fim de que todos saibam em quem cremos. De quem nos sentimos filhos, de verdade! *pe.kasper@gmail.com Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.